Mortal Kombat – Sangue por todos os lados

Rodrigo Reche

Final de 1992. São Paulo, Capital.

Eu, prestes a completar 11 anos de idade.

Street Fighter era o jogo da vez. Quando o assunto era Videogames, na escola ou na rua o jogo de luta da Capcom era unanimidade entre todos.

Ficavamos discutindo teorias, estratégias, golpes e tudo relacionado ao universo de Street Fighter. Infelizmente meu contato com o jogo era limitado. Com um Master System em casa minhas experiências com Ryu e companhia aconteciam em Arcades espalhados pelos bares e comércios do bairro.

Certa vez um amigo da rua chamado Leandro passou em casa e me chamou para conhecer um Arcade que tinha sido aberto na Avenida Sapopemba, ali ao lado de casa. Segundo Leandro o lugar estava repleto de máquinas antigas, novas e estava fazendo bastante sucesso com a molecada da região.

Sem muitas esperanças fui pedir permissão e também um pouco de dinheiro para o meu pai para poder conhecer o lugar. Normalmente meu pai não gostava que eu frequentasse esses lugares e ele não entendia muito bem porque eu precisava gastar dinheiro fora de casa para jogar com um Videogame em casa.

Talvez os astros estivessem conspirando a meu favor naquele fim de semana. Meu pai não só me deixou ir como me deu uma boa quantidade de dinheiro para as fichas naquele dia.

Pelo caminho com Leandro conversávamos sobre quais seriam as máquinas que iríamos jogar. Inicialmente pensei em começar com Final Fight. Com sorte também teria uma máquina das Tartarugas Ninja e com certeza eu gastaria o maior tempo e quantidade de dinheiro com o Street Fighter que eu tanto gostava.

Street Fighter 2

Chegando no local fiquei um pouco assustado pelo ambiente. O local era um pequeno comércio que acabou sendo reformado e entulhado com uma quantidade enorme de Arcades piratas de todos os estilos. O ambiente era escuro, fedia a cigarro e era repleto de caras mais velhos e intimidadores. Um típico Arcade de bairro dos anos 90 no Brasil.

Passado o susto inicial entramos no local e comprei algumas fichas para começar a jogatina. Conforme plano inicial gastei umas fichas em Final Fight e resolvi dar uma circulada pelo local vendo se tinha algum jogo novo que eu ainda não conhecia.

Em uma primeira volta pelo local identifiquei um Pit Fighter abandonado no canto, três ou quatro máquinas com Street Fighter 2. Em um dos cantos do local tinha uma máquina cercada por muita gente acompanhando um adolescente jogando.

Fiquei curioso com a quantidade de gente ali acompanhando a jogatina. Eles gritavam alucinadamente e pelos gritos eu pude deduzir que se tratava de algum jogo de luta. Mas infelizmente pela quantidade de pessoas em volta e pelo meu tamanho (Ainda hoje limitado) eu não consegui ver do que se tratava.

Acabei deixando para lá e fui em direção ao Street Fighter para jogar algumas partidas contra o pessoal que já estava jogando.

Passado algum tempo percebi que a gritaria não diminuía assim como a quantidade de pessoas esperando para jogar. A curiosidade foi maior e acabei me aproximando um pouco mais buscando alguma brecha para ver do que se tratava o novo jogo.

Arcade Mortal Kombat

Minhas suspeitas estavam certas. Era um jogo de luta!

Entre uma pessoa e outra e em cima de uma lata de lixo virada de ponta cabeça pude ver um ninja azul em uma luta contra um personagem que parecia um ciborgue. O cenário onde a luta acontecia lembrava uma passarela com diversos monges assistindo a luta ao fundo. O primeiro cenário de Mortal Kombat.

Obviamente o ninja chamou muito mais minha atenção, afinal de contas, eram os anos 90. Ninjas por todos os lados e em todas as mídias. A molecada pirava!

Após alguns segundos observando percebi que o ninja tinha poderes de gelo. Ele era capaz de congelar o oponente. Fazia todo sentido ele ser azul pensei comigo. Logo descobri olhando na barra superior que o nome dele era Sub Zero (Só poderia ser ele). O outro personagem então seria Kano.

O adolescente que estava jogando controlava Sub Zero. Duas coisas imediatamente chamaram minha atenção: Ao contrário de SF os personagens pareciam atores de verdade. Tudo era realista ao extremo. E a segunda observação que eu fiz foi que a cada golpe desferido ou recebido tinha sangue saindo do personagem!

Mortal Kombat meu amigo dizia. Que demais!

Mas nada, nada mesmo me preparou para o que eu veria a seguir. Ao terminar um dos rounds com vitória do Sub Zero o oponente ficou tonto e a frase Finish Him apareceu em vermelho na tela. Sub Zero se aproximou de Cano, a tela escureceu e com um golpe arrancou a cabeça do pobre coitado.

Sem cerimônia nenhuma e com a espinha dorsal pendurada ao pescoço do pobre lutador que caiu inerte no chão enquanto o ninja exibia a cabeça para tela. A frase FATALITY apareceu na tela pingando sangue e a galera em volta do jogador urrava sem parar.

Por pouco não cai da lata de lixo onde eu estava me apoiando. O que tinha sido aquilo?!?! Eu me perguntava sem parar!

Fatality Sub Zero

Não preciso nem dizer que fiquei maluco para experimentar aquele jogo. A fila de espera estava grande, mas resolvi esperar. Eu jamais poderia ir embora sem experimentar aquilo.

Observei atentamente cada novo jogador da fila jogando e foi bom para eu aprender um pouco mais sobre as mecânicas e mesmo pegar algumas dicas com a galera que estava esperando também para jogar.

Pude presenciar também um moleque que mandava muito bem jogando de Scorpion e quando eu vi o Fatality pela primeira vez achei demais. Ele é uma caveira!!!!

Após quase 40 minutos de espera finalmente chegou minha vez de experimentar aquela maravilha. Coloquei a ficha e com meu colega do lado protegendo o segundo controle para ninguém entrar contra apertei Start.

Tela de seleção de personagens. Estava decidido eu jogaria com Sub Zero. Estava louco para arrancar algumas cabeças.

Estranhei um pouco o esquema de botões e também o comando específico para defesas. Mas em questão de poucos segundos eu já estava adaptado. Resolvi testar o comando de Hadouken e como esperado eu tinha aprendido a magia de congelar.

Pela minha habilidade com SF não foi difícil vencer a primeira luta em Mortal Kombat.

Finalmente chegou a hora, pensei comigo. Vou arrancar cabeças!

No momento em que a frase FINISH HIM apareceu na tela me dei conta que eu não sabia o que fazer. A galera em volta começou a gritar um monte de coisas e eu não entendia nada. Após alguns segundos meu oponente caiu no chão.

Fiquei decepcionado. Foi então que alguém na fila gritou o comando para mim Frente, Baixo, Frente e Soco Forte.

Entendi e memorizei a sequência. Segundo adversário. Venci novamente, mas na hora do Fatality ao executar o comando consegui apenas um gancho. Nada de cabeças arrancadas.

Eu estava gostando muito do jogo. Achava menos fluído que o Street Fighter que eu já estava acostumado, mas estava me divertindo jogando. Um pouco frustrado por não conseguir fazer o Fatality.

Foi então que aconteceu! No terceiro oponente derrotado ao surgir na tela a infame frase Finish Him colei no oponente e executei o comando.

Tela escura, gancho e uma cabeça na minha mão!!!!!

Fatality Classico Sub Zero – Mortal Kombat X

Eu vibrava! A galera em volta gritava parecendo um bando de animais enjaulados. Me senti um superstar aquele dia.

Leandro ao meu lado batia nas minhas costas e tinha uma cara que misturava excitação e orgulho. Que dia meus amigos. Que dia!

Não lembro direito mas acredito que perdi a ficha logo em seguida. Mas não importava já tinha valido a pena. Aquele jogo era o futuro dos jogos de lutas!

Sai do Arcade com um novo jogo de luta favorito! Passei a jogar Mortal Kombat quase diariamente. Aos poucos os assuntos durante os recreios enveredavam para os Fatalitys, personagens, segredos e desafios do Mortal Kombat.

Ano passado pude estar na BGS e consegui autógrafo e foto ao lado do Daniel Pesina, o interprete do Johnny Cage e dos Ninjas nos primeiros jogos da série. Nem preciso dizer o quanto fiquei emocionado. Tive a chance de dizer para ele que ele fez a minha infância mais divertida!

Daniel Pesina Autografando meu Cartucho de MK

Até hoje MK é minha franquia de jogos de luta favorita. Joguei muito a versão caseira para o meu Master System quando ele foi lançado. Cheguei a ficar mais de uma semana direta com o cartucho alugado em casa.

Mais para frente quando ganhei meu computador 486 consegui uma versão para o MS-DOS e passava horas me divertindo jogando no teclado mesmo.

E lá se vão quase 30 anos da franquia. Tive a oportunidade de acompanhar todos os lançamentos e curtir (as vezes me decepcionar) com cada um deles.

Vida longa ao Kombat Mortal!

Sobre o Autor

Guilherme Ferrari

NA VIDA TUDO É PASSAGEIRO, MENOS O MOTORISTA E O COBRADOR.
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