Cinema ou Fliperama?

Rodrigo Reche

Em 1991, eu estava no auge dos meus dez anos, estava cursando a quinta-série do ensino fundamental. Nos cinemas de São Paulo estava estreando o filme Corra que a polícia vem aí 2 e ½ com o mestre Leslie Nielsen.

Uma garota da minha sala com a ajuda dos seus pais convidou uma turma de amigos para irmos ao cinema assistir ao filme. Seu pai faria o serviço de translado. Deixaria toda a turma no cinema no horário de início do filme e depois nos buscaria ao fim da sessão. O cinema escolhido era o antigo Cine Vitória na cidade de São Caetano do Sul. Fiquei animado com a ideia, afinal de contas era a primeira vez que eu teria a chance de ir ao cinema sem os meus pais. Me sentia quase um adolescente.

Além da permissão para ir meu pai também me deu dinheiro para comprar o ingresso e também algum extra para a pipoca e refrigerante.

Corra que a polícia vem aí 2 1/2

Chegamos no cinema e o pai da minha amiga desembarcou o pessoal e foi embora. Corremos para a bilheteria para comprar os ingressos, mas para nossa decepção o filme não seria exibido naquele dia.

Sim erramos o dia.

Naquela época ainda não havia telefone celular, então só nos restava aguardar na porta do cinema até o horário combinado até que alguém viesse nos buscar. Depois de alguns minutos e já entediado por não ter nada o que fazer resolvi dar uma volta e ver o que havia em volta do cinema.

Foi então que para minha surpresa e felicidade havia um enorme espaço com vários Arcades anexo ao cinema. Era bom demais para ser verdade. Afinal de contas quando eu teria outra chance como aquela de passar um bom tempo em um fliperama com meus amigos da escola. Justamente por ser muito novo eu não podia frequentar esses lugares sozinhos e meus pais não me levariam em uma situação normal.

Não pensei duas vezes, chamei a galera da escola e fomos nos divertir, afinal de contas teríamos que esperar cerca de duas horas e estávamos todos com dinheiro, já que ninguém havia comprado os ingressos.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi um Arcade da Konami com os Simpsons desenhados na lateral e uma enorme mesa de controles para 4 jogadores. Os Simpsons era o maior sucesso em 1991, estavam em praticamente todos os produtos consumidos pelas crianças, como álbuns de figurinhas, chiclete, brinquedos etc. Sem ao menos raciocinar comprei algumas (Muitas 😀) fichas e fui jogar.

Crônicas de um Boteco - Cinema ou Fliperama?
Arcade The Simpsons para quatro pessoas

Um dos meus amigos jogou comigo. Eu acabei escolhendo a Marge, fiquei um pouco triste, afinal eu queria o Bart, mas não sabia que a escolha dependia de qual slot eu inseria a ficha. O jogo era lindo, tinha uma cara de desenho animado, e a possibilidade de jogar com mais três pessoas era o máximo.

Aqueles Sprites grandes e coloridos eram lindos.

Obviamente que por ser minha primeira jogatina a ficha não durou muito. Mas isso também não foi um problema. Eu estava com os bolsos cheios. Ficha após ficha fui avançando com meus amigos no jogo, agora já podendo escolher personagens diferentes.

Jogamos muito naquele dia. Não deu para terminar o jogo porque em um determinado momento resolvemos experimentar as outras máquinas do lugar. Jogamos de tudo. Foram momentos de muita risada e diversão com o pessoal da quita-série.

No horário combinado o pai da minha amiga chegou para nos buscar e explicamos o que tinha acontecido. Sem entender muito bem como conseguimos errar o dia do cinema ele nos levou para casa.

Ao chegar em casa, meu pai estava me esperando e ansioso me perguntou sobre o filme. Expliquei a ele que havíamos errado o dia do cinema. Mas aliviado que todos estavam bem mesmo tendo que esperar tanto tempo do lado de fora do cinema. Foi então que ele me pediu o dinheiro de volta. Na mesma hora um calafrio percorreu minha espinha. Congelei e não respondi nada, afinal eu não tinha dinheiro para devolver.

Qual foi a parte da história que ele não tinha entendido? Ele realmente achava que tinha sobrado algum dinheiro.

Ele ficou furioso. Me disse que o dinheiro era para o cinema e não para gastar com Videogames. Disse que eu tinha sido irresponsável e ele estava desapontado. Não pude deixar de sentir um pequeno arrependimento, mas logo passou, afinal de contas, toda aquela diversão tinha valido a pena. Não fosse por isso vocês não estariam lendo essa crônica hoje.

Até hoje quando vou jogar The Simpsons para Arcade, que é um dos meus jogos preferidos, me lembro desse dia. Bons tempos!

Sobre o Autor

Guilherme Ferrari

NA VIDA TUDO É PASSAGEIRO, MENOS O MOTORISTA E O COBRADOR.
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