A surra no Street Fighter Alpha 2

Comecei a trabalhar bem cedo. Em 1997 com 15 anos consegui meu primeiro emprego como instrutor de informática em uma escola na zona leste de São Paulo. Todos os dias eu estudava de manhã, almoçava em casa e logo em seguida partia para a escola Data Byte para começar a dar aulas no período da tarde. Minha primeira turma começava por volta das 14:00hs, mas eu sempre chegava bem antes do horário e ficava de bate-papo com a galera que também trabalhava por lá.

Um dos meus grandes amigos naquela época se chamava Wilson e também era instrutor. Wilson era um pouco mais velho que eu, já estava fazendo faculdade e acabou me ensinando muitas coisas sobre como dar aulas.

Durante um desses incontáveis bate-papos antes de começar as aulas ele me convidou para um café na padaria em frente à escola. Como faltavam ainda 30 minutos antes de começar minha turma acabei aceitando o convite. Chegando na padaria percebemos um Arcade encostado em um dos cantos e isso despertou a nossa curiosidade. Olhando um pouco mais de perto percebi que se tratava de um jogo da série Street Fighter.

Eu não conhecia aquele jogo, mas tinha certeza que os personagens apesar de estarem diferentes do que eu conhecia em Street Fighter 2 eram Ryu e Ken. Observando mais alguns instantes o título apareceu na tela: “Street Fighter Alpha 2”. Eu não podia deixar passar a oportunidade de experimentar um novo jogo da franquia.

Street Fighter Alpha 2

Falei para o Wilson que eu gostaria de jogar uma ficha e para minha surpresa Wilson também disse que jogaria. Minha primeira reação foi de estranheza. Wilson era um típico “Mauricinho” que não tinha nenhum jeito de quem sabia jogar videogames. Aliás, ele sempre soube que eu gostava muito de jogos, mas ele nunca tinha me dito nada sobre gostar ou não.

Pegamos as fichas e nos dirigimos para a máquina. Coloquei a ficha primeiro e por se tratar de um jogo novo, acabei escolhendo um personagem que eu já conhecia bastante. Ken Masters. Após duas ou três lutas vencidas por mim com certa facilidade, Wilson colocou a ficha dele e acabou entrando contra.

“Como assim? ” – Pensei comigo.

Foi então que ele escolheu o Ryu e parecendo meio desajeitado me perguntou como aquilo funcionava. Dei uma explicação rápida sobre os 3 botões de socos e os 3 botões de chutes e a luta já estava para começar.Naquele instante pensei comigo:

“Wilson acabou de cometer suicídio. Vou ganhar fácil e continuar com meu jogo. Afinal quem mandou entrar contra”

Ao começar a luta dei alguns segundos esperando afastado até Wilson testar os botões e logo em seguida já um tanto impaciente parti para cima dele com vontade de acabar rápido com aquela luta. Saltei em direção ao Ryu adversário com intenção de acertar uma voadora, mas acabei levando um Shoryuken no meio da cara só para ficar esperto.

Nesse momento a ficha caiu. Wilson sabia o que estava fazendo. A luta que até então tinha contornos tranquilos me deixou tenso. Eu não poderia perder de jeito nenhum.

Ryu x Ken

Acontece que Wilson não só sabia o que estava fazendo como jogava muito bem e acabou me dando uma surra. Uma das maiores que eu já levei até hoje. Depois de acabar, ele ainda olhou nos meus olhos e deu uma risadinha em tom de deboche.

Aquela derrota mexeu comigo. Fiz papel de bobo explicando para ele sobre os botões e também pela minha arrogância. Tentei não deixar transparecer, mas tenho certeza que ele percebeu a minha frustração já que propôs uma revanche no dia seguinte.

Acontece que eu não poderia aceitar aquela revanche. Não naquela hora. A diferença de habilidades entre Wilson e eu era gigante. Ele era muito melhor e isso era um fato. Jogar de novo no dia seguinte só ia aumentar o meu cartel de derrotas. Eu aceitaria essa revanche, mas no momento certo. Eu tinha que treinar antes, mas não podia admitir isso de maneira nenhuma.

Sendo assim todos os dias antes de chegar na escola para dar minha primeira aula eu já passava direto na padaria e comprava algumas fichas para treinar sozinho e de certo modo em segredo. Foi assim por aproximadamente duas semanas jogando todos os dias de segunda a sexta. Vencer aquela revanche era uma questão de honra.

Logo comecei a ficar bom de verdade e sem dúvidas esse treinamento intensivo acabou contribuindo muito para que Street Fighter Alpha 2 se tornasse o meu jogo preferido de toda a franquia.

Eu estava pronto!

Ken Masters

Não demorou muito e lá estávamos Wilson e eu novamente em frente a máquina para nossa revanche. Eu estava tenso, mas confiante. Escolhi novamente Ken e ele também jogou seguro apostando no Ryu.

A luta foi dura. Perdi o primeiro Round em um embate parelho. Acabei vencendo o segundo e na decisão do terceiro round eu suava mais do que o normal.

Comecei o Round final jogando seguro na defensiva. Começamos com uma troca de hadoukens frenética e isso possibilitou que ambos estivéssemos com as barras de especial cheias. Todo cuidado era pouco. Cada ataque tinha que ser bem pensado pois certamente uma falha resultaria em um contra-ataque mortal.

Wilson levava uma pequena vantagem e já estava impaciente com meu jogo na defensiva. Quando ele percebeu que se acertasse o especial em mim venceria a luta acabou se precipitando e desperdiçou seu especial que eu acabei defendendo. Agora o jogo estava a meu favor era só questão de escolher a hora certa e rezar para que o meu especial entrasse sem nenhuma chance de erro. E assim foi:

Wilson atacou com um Shoryuken que eu consegui defender deixando ele exposto e contra-atacando com o meu especial. Fim de luta! Venci.

Naquele momento saiu um peso das minhas costas que sinceramente não sei porque eu estava carregando. Era só um jogo! Mas eu nunca gostei de perder e é assim até hoje. Fato é que depois daquele dia jogamos muitas e muitas vezes. Esse era nosso programa diário antes de começar as aulas e acabamos ficando muito bons um treinando com o outro.

Ganhei muitas vezes e perdi outras tantas, mas já não importava mais. A gente se divertia e foi nesse período que eu percebi que se eu me dedicasse de verdade poderia ficar bom em qualquer jogo que eu quisesse.

Infelizmente hoje não tenho mais contato com o Wilson. Mas se você algum dia ler essa crônica saiba que você foi um dos adversários mais duros que já tive jogando Street Fighter e levo com carinho essa história que aconteceu há mais de 20 anos.